Chitãozinho e Xororó lançam grandioso CD “Tom do sertão”
Chitãozinho e Xororó - CD “Tom do sertão”

O encontro das águas

A dupla Chitãozinho e Xororó, formada por José Lima Sobrinho e Durval de Lima, paranaenses de Astorga, promoveu a travessia do caipira interiorano para o sertanejo cosmopolita.

Protótipo do ser urbano, o compositor carioca Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom Jobim (1927-1994), um dos artífices da bossa nova, embrenhou-se no mato em várias canções, onde misturavam-se a defesa e o desfrute da natureza exuberante do país incrustado em seu sobrenome. Na encruzilhada estética do bonito e denso disco “Tom do sertão” ocorre este inesperado e benfazejo encontro de culturas, repleto de afinidades insuspeitadas.

A ideia inicial foi de Xororó: “Um dia falei pro Chitão que estava ouvindo muito Tom Jobim e imaginei que talvez, um dia, podíamos gravar um disco com as músicas dele. E ele gostou muito da ideia. Um tempo depois, o Chitão voltou a falar no assunto, dizendo que já tinha até o nome do disco, ‘Tom do sertão’. Achei incrível, tudo a ver com o conceito do trabalho!”.

No projeto da dupla de “resgatar a obra de grandes autores”, Jobim foi logo o primeiro cogitado por ser um grande compositor e ter criado músicas que retratam coisas simples do campo, e os artistas acharam que tinha tudo a ver com a proposta.

Xororó lembra que costumavam ouvir as músicas mais populares de Tom Jobim antes de iniciar a carreira. E identificaram pontos de sintonia. “Aos poucos fomos descobrindo que o Tom estava muito mais próximo de nós do que imaginávamos; do nosso universo sertanejo, razão do seu amor pelos rios, matas, bichos, enfim, a exuberância da natureza, que, infelizmente, destruímos diariamente”. Um dos muitos encantos do álbum é o roteiro pouco previsível do repertório, com ênfase nas canções românticas, e na face sinfônica e seresteira do maestro, em temas como “Modinha”, “Estrada branca”, “Eu sei que vou te amar” e “Se todos fossem iguais a você”, esta em levada de marcha rancho.

As músicas foram escolhidas após rigorosa pesquisa sobre sua obra completa, tendo como referência o ‘Cancioneiro Jobim’ e as principais publicações sobre o gênio”. “Achamos que ‘Modinha’ se encaixa no projeto como forma, como uma moda caipira, interpretada com o coração arrebatado do sertanejo”, comentam os artistas. “‘Estrada branca’ soou sertaneja desde a primeira audição; música e letra. ‘Eu sei que vou te amar’ é um desejo de todo cantor. Uma das músicas mais gravadas do repertório do Tom, e nos mais variados arranjos, nunca interpretada por um sertanejo, dobrando a voz com sua viola caipira. ‘Se todos fossem, iguais a você’, em marcha rancho, foi escolhida pela emoção que sentimos ao ouvir, na primeira reunião para escolher o repertório. A gravação do próprio Tom com o lindo arranjo de Claus Ogerman, nessa levada que é bastante apreciada pelo público sertanejo que, diga-se, é seresteiro de nascença””.

Chitãozinho credita o invólucro sinfônico mais ao formato do arranjo. “Caetano Veloso gravou ‘Eu sei que vou te amar’ em duas oitavas diferentes, com o acompanhamento de um violão. Soa grande, mas não sinfônico”, separa. Xororó disseca a roupagem de “Tom do sertão”: “Ela foi definida preservando as harmonias, melodias de seus contracantos – tão famosos quanto suas melodias. As cordas e flautas tão típicas na música do Tom foram misturadas com a instrumentação de outro tom brasileiro (o trocadilho foi inevitável), da sanfona, da rabeca, da viola caipira, da música sertaneja”. A postura vocal da dupla diante da obra do compositor também foi estudada com cuidado. “As melodias e harmonias do Tom pressupõe uma abordagem diferente da usual em terças ou sextas paralelas, usadas na música sertaneja”, detalha Xororó, cuja tessitura mais aguda conferiu-lhe o posto de solista. “Chitãozinho enfrentou corajosamente a dificílima tarefa de encontrar uma segunda voz condizente com o projeto e o respeito as obras”, define.
Não faltou esmero e artesania de alto refino ao “Tom do sertão”, lapidado em nada menos de nove estúdios, sob direção artística da própria dupla. A produção e principais arranjos de base são de Edgar Poças (pai dos cantores Céu e Diogo Poças), Ney Marques e Cláudio Paladini, esteios das cordas (guitarra, mandolim, violão, viola, bandolim) e teclados (piano Rhodes, piano, Hammond) do grupo central do disco. Ao lado deles, Maguinho (bateria), Pedro Ivo (baixo), Alê Di Vieira (percussão), Paulinho Ferreira, Elias Almeida (violões, viola guitarras), Milton Guedes (flauta, gaita) e Toninho Ferragutti (acordeon). Uma Orquestra de Cordas adensa a moldura instrumental com doze violinos, quatro violas e quatro cellos. Contribuíram com arranjos de cordas os maestros Lucas Lima e Ruriá (sobrinho de Rogério) Duprat. O bossanovista Roberto Menescal toca guitarra semi-acústica no embalo levemente valseado da redentora “Caminhos cruzados”, de Tom Jobim e Newton Mendonça.
A semi erudita “Modinha” (parceria com Vinicius de Moraes, lançada no célebre disco “Canção do amor demais”, de Elizeth, em 1958) ganhou tempera seresteira, cerzida pela viola de 10 cordas de Xororó. Outra parceria com Vinicius, “Eu sei que vou te amar” (inaugurada pela cantora lírica Lenita Bruno, em 1959) foi transportada para o campo da moda de viola, também pelo dedilhado de Xororó. Outras sutis intervenções conduzem ao bolero, sambas canções pouco lembrados como “Solidão”, parceria de Tom com Alcides Fernandes, que Nora Nei gravou em 1954, e “Se é por falta de adeus” (com Dolores Duran), por Doris Monteiro, em 1955. “Chovendo na roseira”, que Tom Jobim lançou em versão instrumental em 1970, pulsa sob vigorosa e inusitada latinidade. Marco fundador da bossa nova, o (originalmente choro) “Chega de saudade”, emblema de João Gilberto, em 1958, tem interferências de banjo, dobro e gaita. Da trilha original da peça de Vinicius de Moraes, “Orfeu da Conceição”, “Se todos fossem iguais a você” (Roberto Paiva, 1956), como foi dito, tem apoteose de marcha rancho, forrada por acordeon e flautas.
Outra parceria ancestral de Tom e Vinicius, “Eu não existo sem você” (Vanja Orico, 1957), flutua como balada, contraponteada por citação incidental de mais uma composição da dupla autoral, “Derradeira primavera”. Do mesmo repertório do épico songbook de Tom e Vinicius gravado por Elizeth, “Canção do amor demais”, “Estrada branca” e “Caminho de pedra”, bifurcam-se em abordagens diferenciadas. A primeira tem acentuada pela dupla sua poética sombria e comovente. E a segunda, uma toada, desliza mansa sob alternância de climas. Outras toadas originárias, “A chuva caiu” (Ângela Maria, 1954) e “Correnteza” (Luiz Cláudio, 1973) encaixam-se com perfeição nas harmoniosas vozes da dupla, também inteiramente aclimatada ao crossover bossa-sertanejo do megaclássico “Águas de março”, que Tom Jobim lançou ao piano numa edição do “Disco de Bolso”, do jornal Pasquim, em 1972.
Os artistas fecham o verão na conversa ribeira deste encontro de marés: “É preciso ressaltar que as canções do nosso maestro são imortais e nós, como intérpretes, tivemos a intenção de apresentar algo novo, inédito, que pode levar a música do Antonio Brasileiro a lugares aonde talvez nunca tenha chegado nesse Brasil”.

Por Tárik de Souza -Janeiro de 2015

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